domingo, 30 de agosto de 2026

Escrito em verde,
nos meus tropeços
rasuras em vermelho
pequenos espaços em branco
a serem preenchidos

Pontos em amarelo
traços em âmbar

Usei todas as tintas
Para falar de mim
sobrou o azul
Verde no azul
assim como na música

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Um exercício de gramática

"Dizer não" é libertador
"Dizer" não é libertador
Liberto na medida do que se alcança
Prisioneiro na medida do que se deseja

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Noites azul-marinho

Tocar em fios do tempo
Escrever sobre memorias inenarráveis
Sonhos estranhos em noites de vento e silêncio

Apenas escrever como se beijasse suavemente o rosto de alguém querido
E falar de sentimentos
E de coisas que acabam
E que começam
E renascem
E se descobrem

Tudo e mais um pouco
Nada e ninguém
A vida, porque se vive
A vida, por quem se vive

Decifrar o mistério em uma busca incessante
E novamente entregar-se a ele

Eu quero que tudo que eu escrevi um dia saia do meu peito
Um longo sopro dos quatro ventos cardeais

Não me digam quem eu sou porque eu não me importo
Que eu seja quem eu sou para cada um e que isso lhes dê o que querem de mim
Se quiserem algo também

Desconsiderei os pontos finais, mas me apoiei nas vírgulas
Há de se respirar um pouco, afinal

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Sangue na cabeça, vento nos pés

Tudo me subiu 
em ondas rubras.
Como corre o sangue
ao se pendurar de cabeça pra baixo.

Tudo me voltou de súbito,
sem avisar, sem alarde.
Ocuparam-se os cômodos
assim como fazem os fantasmas.

Não foram pedidas palavras,
mas aqui estamos.
Só sentir em sucessão,
em conjunto, ininterruptamente.
Todos sem ordem,
sem preferência.

Não tem gosto de sofrimento.



terça-feira, 9 de junho de 2026

Pseudo haicai

Pássaros na noite de inverno.
Pés na cabeça
e chão nas nuvens.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Duas verdades

Se me perguntassem hoje
se ainda te amo,
eu diria que não.
E seria verdade,
ainda que o contrário
seja verdadeiro também.

Existe uma impossibilidade de mim
que ama uma impossibilidade de alguém.
Na linha do tempo,
um segmento da reta que me compõe.
Uma sombra que antes foi forma concreta,
matéria sólida diante da luz.

Existe hoje esta versão de mim
que não ama versão qualquer de alguém.
Na linha do tempo,
um ponto final que continua se estendendo
de maneira indefinida.

Viver em contradição.
Viver é um ato de contradição.
Viver é morrer,
e morrer é ter vivido.

Amor pode ser, então,
amar alguém na impossibilidade,
amar alguém na inexistência.
Ser ao mesmo tempo
alguém que amou
e alguém que não ama.

É poder dizer
que não te amo
e ao mesmo tempo dizer
que eu te amo.

Um grande êxtase.
Uma grande miséria.



segunda-feira, 30 de março de 2026

Sem título e inacabado

Poderia fazer daquelas partículas de luz
a mais sólida matéria.
Mais do que imagem,
mais do que um holograma.

Mas que matéria seria essa?
Ao final do turbilhão
qual rosto estaria ali?
Qual sorriso refletiria as luzes do poste?
Quais contornos teria 
o corpo iluminado na minha frente?

E como dançariam as sombras
e quais sons sairiam
da boca que toma forma nessa luz?

São tantas memórias.
Sons, cheiros, cores,
olhares, texturas,
palavras e nós,
vários "nós".

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Configuração do Lamento

Levantar em meio ao sal
das águas do meu corpo.
Permanecer no escuro
para fugir do dia.

Afrouxar as válvulas do meu peito,
soltar os vapores do incêndio
que hora consome, hora sufoca
mas sempre queima.

Apagar os traços do meu rosto
e desenha-los novamente
por cima das marcas antigas.

Escrever estas palavras
e mergulhar no silêncio.

"Nunca mais", disse o corvo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Eu nunca mais fui eu

Sinto como se buscasse o inexistente.
A falta muda de rosto,
mas nunca de si.

Um rosto é só uma máscara,
um disfarce temporário
para a falta que persegue.

Eu sou um colecionador de máscaras,
algumas eu arranco à força.
Outras são dadas a mim
como maldições da memória.

A falta mora na memória,
a memória mora na mente
e se alimenta do coração.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Orfeu também olhou para trás

Olho para dentro
e percebo que não encontro raiva,
não encontro ódio.
E tudo queima ainda assim.

Para que não se perca tudo
eu aprendi a me sacrificar no lugar.
Eu sempre posso começar de novo.
Eu sempre posso tentar outra vez.

Mas talvez eu seja como Orfeu,
que fez de tudo até o limite,
mas ainda inseguro olhou para trás.
Fez-se morto na sua perda
antes de morrer nas mãos das bacantes.

Eu estou a deriva nesse rio,
despedaçado novamente,
as partes de mim flutuam
sem se encostar.
Eu fecho meus olhos.
Eu sigo no rio,
sem poder voltar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Temperança

Não há crença na culpa,
eu acredito no desencontro.
Dois caminhos que se tocam
e caminham juntos até onde podem.

O que nasceu e o que foi,
isso é verdadeiro.
Há beleza naquilo que existiu
dentro do tempo que lhe coube.

As suas mãos fechadas
que seguram pesos e faltas,
ilusões de culpa e controle.
Empreste-as para mim por um instante,
deixe que eu te ajude a abri-las.
Para que você solte também.

E que a liberdade te encontre
assim como a brisa toca seu rosto.
Sem pedir passagem,
sem intenção,
sem direção imposta.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

É estranho estar trancado do lado de fora, mas saber que também tem uma parte de mim trancada dentro de você.