quarta-feira, 24 de junho de 2026

Sangue na cabeça, vento nos pés

Tudo me subiu 
em ondas rubras.
Como corre o sangue
ao se pendurar de cabeça pra baixo.

Tudo me voltou de súbito,
sem avisar, sem alarde.
Ocuparam-se os cômodos
assim como fazem os fantasmas.

Não foram pedidas palavras,
mas aqui estamos.
Só sentir em sucessão,
em conjunto, ininterruptamente.
Todos sem ordem,
sem preferência.

Não tem gosto de sofrimento.



terça-feira, 9 de junho de 2026

Pseudo haicai

Pássaros na noite de inverno.
Pés na cabeça
e chão nas nuvens.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Duas verdades

Se me perguntassem hoje
se ainda te amo,
eu diria que não.
E seria verdade,
ainda que o contrário
seja verdadeiro também.

Existe uma impossibilidade de mim
que ama uma impossibilidade de alguém.
Na linha do tempo,
um segmento da reta que me compõe.
Uma sombra que antes foi forma concreta,
matéria sólida diante da luz.

Existe hoje esta versão de mim
que não ama versão qualquer de alguém.
Na linha do tempo,
um ponto final que continua se estendendo
de maneira indefinida.

Viver em contradição.
Viver é um ato de contradição.
Viver é morrer,
e morrer é ter vivido.

Amor pode ser, então,
amar alguém na impossibilidade,
amar alguém na inexistência.
Ser ao mesmo tempo
alguém que amou
e alguém que não ama.

É poder dizer
que não te amo
e ao mesmo tempo dizer
que eu te amo.

Um grande êxtase.
Uma grande miséria.