Se me perguntassem hoje
se ainda te amo,
eu diria que não.
E seria verdade,
ainda que o contrário
seja verdadeiro também.
Existe uma impossibilidade de mim
que ama uma impossibilidade de alguém.
Na linha do tempo,
um segmento da reta que me compõe.
Uma sombra que antes foi forma concreta,
matéria sólida diante da luz.
Existe hoje esta versão de mim
que não ama versão qualquer de alguém.
Na linha do tempo,
um ponto final que continua se estendendo
de maneira indefinida.
Viver em contradição.
Viver é um ato de contradição.
Viver é morrer,
e morrer é ter vivido.
Amor pode ser, então,
amar alguém na impossibilidade,
amar alguém na inexistência.
Ser ao mesmo tempo
alguém que amou
e alguém que não ama.
É poder dizer
que não te amo
e ao mesmo tempo dizer
que eu te amo.
Um grande êxtase.
Uma grande miséria.