sábado, 21 de fevereiro de 2026

Configuração do Lamento

Levantar em meio ao sal
das águas do meu corpo.
Permanecer no escuro
para fugir do dia.

Afrouxar as válvulas do meu peito,
soltar os vapores do incêndio
que hora consome, hora sufoca
mas sempre queima.

Apagar os traços do meu rosto
e desenha-los novamente
por cima das marcas antigas.

Escrever estas palavras
e mergulhar no silêncio.

"Nunca mais", disse o corvo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Eu nunca mais fui eu

Sinto como se buscasse o inexistente.
A falta muda de rosto,
mas nunca de si.

Um rosto é só uma máscara,
um disfarce temporário
para a falta que persegue.

Eu sou um colecionador de máscaras,
algumas eu arranco à força.
Outras são dadas a mim
como maldições da memória.

A falta mora na memória,
a memória mora na mente
e se alimenta do coração.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Orfeu também olhou para trás

Olho para dentro
e percebo que não encontro raiva,
não encontro ódio.
E tudo queima ainda assim.

Para que não se perca tudo
eu aprendi a me sacrificar no lugar.
Eu sempre posso começar de novo.
Eu sempre posso tentar outra vez.

Mas talvez eu seja como Orfeu,
que fez de tudo até o limite,
mas ainda inseguro olhou para trás.
Fez-se morto na sua perda
antes de morrer nas mãos das bacantes.

Eu estou a deriva nesse rio,
despedaçado novamente,
as partes de mim flutuam
sem se encostar.
Eu fecho meus olhos.
Eu sigo no rio,
sem poder voltar.