terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Debaixo do sol

Tenho medo de sair de casa,
medo de andar por aí
e te encontrar em alguma rua

Tenho medo de que ao te ver,
como se fosse pela primeira vez,
eu incendeie, queime por completo

Medo que você brilhe tão forte,
tão intensamente ainda dentro de mim
que tudo o que restará do meu coração
será uma pequena pedra de carvão

Que coisa terrível,
viver com medo de um amor,
medo de amar ainda e além

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Boa noite, Clarice

Sinto que preciso dizer algo, mas não sei o que. Parece que o futuro tenta se impor, se adiantar antes mesmo de ser construído. Um futuro assim não é nada além de ansiedade.
Clarice disse uma vez que se sentia presa dentro de si, tornou-se "intolerável para ela mesma", dizia que lhe faltava uma beleza que sempre perseguiu: a liberdade. Gostaria de dizer para Clarice que somos todos intoleráveis para nós mesmos. Somos tão intoleráveis assim porque nos falta algo por essência, sempre faltará. Por isso buscamos tanto o outro, e é bom que seja assim. Melhor que sejamos incompletos juntos de outros "alguéns". E na medida em que ser incompleto seja também uma busca, que se faça presente a beleza que tanto lhe faltou. Buscando somos livres e encontrando pequenos pedaços de outros, costurando retalhos com outras mãos, seremos também felizes.
Não importando que nem sempre tenhamos a felicidade, porém sabendo que sempre a reencontraremos, mas tentando sempre ser e deixar-nos livres de nós mesmos. Para que se possa reencontrar a si, sem se dilacerar e sem se perseguir. 
Clarice, acho que nunca vou me aceitar por completo, também não acredito que existe alguém capaz desse feito, mas sou feliz com as partes de mim aceitas pelos outros e pelas partes dos outros que aceito também. E sendo aceitado e aceitando o outro, vejo que talvez eu não seja tão intolerável assim.